Francisco Resto





Santa Catarina, 18 de Fevereiro de 1983

Querido primo António,


Espero que esta carta te encontre bem de saúde e que já estejas mais habituado ao inverno rigoroso da Suíça.

Gostámos muito das fotografias do lago que nos mandaste na última carta, mas tive que correr para a frente da lareira, para que não congelar ao ver a neve em cima dos telhados das casas e ler as tuas descrições da vida nessa terra tão branca, em todos os sentidos, como lhe chamaste.


Infelizmente, não trago as melhores notícias sobre a tua mãe. A sua saúde está cada vez mais debilitada e está a perder a consciência das coisas mais banais. Ontem mesmo, chamou-me ao quarto, como se estivesse aflita e disse-me “Ó António, o teu pai está quase a chegar. Sabes, esta guerra não irá durar para sempre.” Eu tentei acalmá-la e dizer-lhe que não era o António, mas a tua mãe ignorou tudo o que lhe dizia e continuava a falar contigo. Pedia-me que a abraçasse e que tivesse paciência com a guerra, que haveria de trazer o teu pai de volta, e disse, repetidamente: “não saias de ao pé de mim, enquanto esperamos pelo pai. Ele disse que não demorava, não disse?”, eu fui respondendo-lhe que sim e abraçava-a como ela pedia mas, temo que não servia para nada. Continuava a chamar por ti.




Por aqui, continua tudo cinzento. As cores ainda não nasceram. O inverno parece querer ficar para sempre, deve gostar de nós. Mesmo que nós não gostemos dele. Sente-se só, como a tua mãe que não acalma enquanto não chegares.

A tua mãe continua a pensar que também foste para a guerra, como o teu pai e, seja o que for que lhe diga, insiste sempre em dizer que temos que rezar por ti, para que nenhum fantasma se apodere de ti.

A tia Maria passa por cá todos os dias, depois da missa, e fica lá no quarto com a tua mãe e lê-lhe, em voz alta, os livros que elas liam quando eram jovens. A tua mãe acalma-se e, às vezes parece que os olhos lhe voltam a brilhar. Às vezes, estão as duas com lenços nas mãos a limpar as lágrimas que lhes escorrem até ao nariz, como se as memórias descongelassem. Fico com medo que tanta emoção lhe faça mal, mas por outro lado, que outras emoções pode a tua mãe viver senão as do passado? 

Esta casa está a degradar-se muito e tenho a certeza que se um dia ficar desabitada, começará a ruir. Já pedimos, outra vez, ao senhor Domingos que conserte as janelas e ele tenta, mas continua a dizer que já estão muito velhas e que deviam ser substituídas por umas mais modernas, mas estou com medo de gastar os poucos recursos da tua mãe, e eu, como sabes, ainda não consegui resolver a minha vida. 

Tenho saudades do Luís, mas não posso voltar com atrás com a minha decisão e, se quero voltar a ter alguma dignidade, tenho de começar tudo de novo. Também tenho saudades de Coimbra, das minhas amigas e até me faz falta a biblioteca da universidade, onde trabalhei durante tanto tempo. Por outro lado, sinto que o meu casamento já estava perdido há muito tempo e, se há alguma coisa que mereça ser salva, é a tua mãe. Mesmo que só chame por ti, é como se chamasse por mim também. 

A tia Maria diz que o tio Victor conhece alguém que trabalha numa biblioteca e vai tentar interceder por mim. Por um lado faria-me muito bem, porque preciso de sair desta casa que às vezes também me atormenta, mas por outro lado, tenho medo de deixar a tua mãe só com a dona Josefina, que está igualmente com uma idade avançada, e às vezes nem sei quem precisa de tratar de quem. Sabes que com a dona Josefina a tua mãe fica lúcida? É muito engraçado. Começam as duas a discutir, sobre as coisas mais banais e a tua mãe até parece que se vai levantar da cama e dar uma grande descompostura na dona Josefina que, coitada, fica muito aflita e vai-me chamar para que a salve. 


Um dia destes, também tive que levar a dona Josefina ao médico, que está preocupado com a saúde dela. Diz que ela é rija como um pêro, mas que um dia pode cair da pereira, porque nenhum fruto dura para sempre, diz ele. 

Sabes o que ela me disse sobre ti? Disse-me que no dia em que nasceste ela foi a primeira pessoa que te viu e que quando olhou para a tua cara disse logo “com esta carinha tão bonita só podia ser uma menina” e depois acrescentou “sabe menina, o seu priminho, ainda hoje é muito bonito. Enganei-me ao dizer que ele era uma menina, mas talvez tenha sido porque o coração nasceu-lhe primeiro que o resto do corpinho, tão perfeitinho menina, tão perfeitinho.” E quando acabou de contar esta história, pegou-me nas mãos e disse: “A menina também era muito bonita mas nasceu com o coração virado ao contrário e só o vi quando lhe peguei ao colo.” E depois de dizer estas coisas, deu-me um beijo como se eu fosse uma criança, como se eu me tivesse portado bem e disse: “A menina vá chamar o seu priminho Antoninho que a mãe já o está a chamar.”

Sabes António, daquilo que mais sinto saudades é quando me abraçavas. Eu sei que eras meu primo mas, mesmo assim, quando éramos pequenos quase me apaixonei por ti. Teria apaixonado se soubesse o que isso era. Como não sabia, amei-te como um irmão, que era a mesma coisa, por outras palavras.




Como a dona Josefina pediu, estou aqui a chamar-te. A hora de Jantar já passou há muito tempo e ainda estamos à tua espera. A comida está a ficar fria.

Um grande beijo da tua prima, com muitas saudades.

Aurora



Texto : Francisco Resto
Fotografia : Estelle Valente

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